sábado, 17 de fevereiro de 2018

Optimismos

73 implicações estonteantes

"As empresas de tecnologia e programação dominarão, cada vez mais, a economia mundial à medida que empresas como a Uber, a Google ou a Amazon alterem o sector dos transportes como o conhecemos para um serviço pago enquanto use.
O software vai devorar este mundo (sic), de facto.
Ao longo do tempo, aquelas empresas terão tantos dados acerca das pessoas, dos seus padrões de consumo e de eventuais obstáculos que será muito difícil a entrada de novos agentes nesses mercados.

Sem intervenção estatal (ou de qualquer iniciativa concertada), haverá uma tremenda transferência de riqueza para um pequeno número de pessoas que sejam proprietárias de programas específicos, de soluções de produção de energia, dos veículos de serviço ou da infraestrutura de manutenção.
Haverá uma grande consolidação das empresas que sirvam estes mercados à medida que a eficiência e a escala se tornem mais interessantes."


Geoff Nesnow, "73 implicações estonteantes dos carros e camiões autónomos", 9 de Fevereiro de 2018.

Anexo aqui algumas observações críticas relativamente ao artigo (versão completa na ligação colocada acima). Traduziu-se uma pequena, mas relevante julgamos, parte do artigo para destacar dois aspectos:

Por um lado, o optimismo evangélico destes promotores das tecnologias digitais. Optimismo que rapidamente esmorece quando contempla objecto tão complexo como o mercado ou a economia real (muito mais complexo do que as novíssimas tecnologias que pregam!). E esse esmorecimento conduz sempre à sacra visão de que o estado tem de intervir para regular, para salvar, para melhorar (acrescentar o que se quiser) ou para afinar os detalhes éticos de certos negócios.
Esta ingenuidade (evito outra expressão, note-se) é historicamente conhecida e não é produto deste tempo novo. E o que destaco aqui é a incapacidade de compreender que as actuais configurações dos mercados (neste caso das tecnologias digitais) dependem, justamente, das directrizes que os estados terão dado aos respectivos sectores anteriormente. Quantas vezes essas directrizes não são, precisamente, resultado do conluio entre agentes políticos e agentes económicos? Naturalmente, estes inocentes-pseudo-criativos não têm capacidade para reconhecer este facto. Ou têm?

Por outro lado, note-se a confusão que estes inocentes-pseudo-criativos (adorei e agora abuso, que me desculpem os leitores) fazem entre dados e informação.
Por aqui partilhamos a preocupação com a recolha e utilização de dados pessoais por parte de empresas e estados, mas não confundimos dados com informação significativa, que possa ter uma aplicação económica (ou outra) que seja viável e sustentada. E é, julgamos, esta confusão que tem sustentado grande parte do entusiasmo e do crescimento do sector das tecnologias digitais. Que depois não sobrevive ao teste do tempo.

O futuro pode ser promissor, mas exige-nos menos a disposição de acreditar do que a capacidade de questionar a qualidade dos desafios e soluções que cada um enfrenta para responder às suas necessidades. Favorecer o desenvolvimento de uma visão verdadeiramente criativa do futuro é assumir aquela responsabilidade crítica, é aprender com o passado e ancorar o caminho em fundamentos menos circulares e mais esclarecidos. Dispensando, por exemplo, a ideia do estado paternalista. Isso sim seria original.

Serão capazes, os inocentes?

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Citação do dia (202)

"Como a Goldman Sachs indicou recentemente, tem havido catorze ciclos de baixa volatilidade desde 1928 e todos esses ciclos necessitaram de um poderoso choque - seja uma guerra ou uma recessão - para terminar.
No entanto, o facilitamento-quantitativo (QE) e a explosão de estratégias passivas de investimento impedem que a História nos ensine alguma coisa acerca do que está para vir. E, quanto mais longa for a supressão da volatilidade, maior será a bolha. Esta, por sua vez, exigirá uma correcção mais dura e custosa para a mentalidade dominante.
Como Hyman Minsky disse uma vez:´Quanto mais estáveis as coisas se tornam e mantêm, mais instáveis elas estarão quando a crise chegar.`"

Kiril Sokolov, 13DResearch, "Why a toxic mix of low volatility..."

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Aldeia Global de contraplacado




Enquanto aguardam pelo degelo, que permita o trânsito entre as relevantes reuniões das delegações em Davos, os curadores dirão que a "felicidade universalmente garantida" é possível.
Nem que a natureza e a história dos mercados se vejam subvertidas para lá da compreensão dos mais atentos.
Felicidade. Com prazo de validade.

Nota: o detalhe dos valores gregos ter "melhorado" a tempo da reunião do grupo europeu que Centeno (finge que) guia é deliciosamente maldoso (comparar aqui).
Uma gigante placa de contraplacado, é o que é. Tapando o quê?

sábado, 13 de janeiro de 2018

Master Class - Leemon Baird

"A descentralização segura da informação está ao nosso alcance."

A sessão que hoje aqui apresentamos retoma a temática tecnológica e as potencialidades que ela nos parece oferecer. A velocidade a que os desenvolvimentos acontecem é, sem dúvida, estonteante, mas acreditamos que o esforço de lhes entender as dinâmicas e os sentidos pode facilitar-nos a avaliação que o tempo, em última instância, determinará.
A entrevista que propomos é conduzida por Demetri Kofinas (cujo podcast e discussões acompanhamos) e permite uma apresentação intensa e desafiadora da visão de Leemon Baird (já por aqui o tínhamos destacado, mas pode-se aceder a uma outra pequena síntese aqui).
A visão que aqui se apresenta e discute mistura, por um lado, o fazedor-sonhador e o teórico-sistematizador, mas também o cidadão-utilizador das ferramentas tecnológicas digitais. Baird parece ter "a pele a jogo", como diria Nassim Taleb. Isso só torna a sua visão mais valiosa.

Os pontos fortes desta conversa são, do nosso ponto de vista os seguintes:
- a comparação entre as diferentes soluções tecnológicas para os "balanços públicos descentralizados" (Decentralized Ledger Technologies - DLT) - bitcoin/blockchain versus hashgraph;
- a exploração dos múltiplos fins para esses "balanços públicos descentralizados", especialmente aqueles que, através do hashgraph, têm as qualidades estruturais para responder a exigências muito importantes (como a rapidez, a justiça e a segurança);
- como podem as pessoas estar juntas apenas digitalmente - novas formas de socialização;
- a facilidade e ausência de custos de uma nova cidadania digital - criação de novos mundos digitais de interacção;
- escapando à necessidade da publicidade e do controlo que ela encerra nos meios digitais através da multiplicação dos nós/servidores múltiplos que o hashgraph possibilita;
- como podem os inovadores dar um profundo alcance positivo às ideias que querem concretizar - descentralizar em segurança é o caminho;
- a criação de criptomoedas é uma pequena parte deste movimento.

As ideias que Baird aqui partilha podem não ser, aparentemente, diferentes das que os proponentes de novas soluções tecnológicas oferecem no momento do ciclo como este em que vivemos. Porém, julgamos que, optimismos ingénuos à parte, a substância do que aqui se discute é muito promissor. E não sacrifica as ideias que por aqui tão valorizamos, especialmente no que diz respeito à defesa da liberdade, da privacidade e da promoção da concorrência entre os pólos de poder.

Aos nossos leitores, reiteramos os votos de um excelente 2018.
Boas reflexões.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

sábado, 23 de dezembro de 2017

Perspectivando Um Tempo Feliz

Ben Young


A realidade retorcida intensifica-se por debaixo de um nevoeiro encomendado. A aparência dócil e próspera dos dias é tão enganadora quanto um nevoeiro pode ser reconfortante e bucólico. Escondendo as sombras e os acidentes geográficos. Ou sociais.

Que possamos encontrar alguma perspectiva clarificadora - de frente para a clareza rude do mar, por exemplo.

Aos leitores do Espectador Interessado, os seus autores desejam Festas muito Felizes.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Desafios de contexto















A propósito desta entrada no Insurgente, leio o gráfico nela presente e, literalmente a seguir, deparo com estas citações. Tão a propósito que não resisti ao excesso.
Não conhecendo a posição dos Insurgentes (tanto de André Azevedo Alves, como de MAL) acerca destes tópicos, não deixo de considerar estranho o título escolhido. Que servirá?

Citação do dia (201)

"Fora do manicómio em que saltita boa parte da “opinião”, o problema da Raríssimas não é ser “particular” na designação, nos estatutos e na teoria: é não ser particular na prática."

Alberto Gonçalves, Observador, 16 de Dezembro de 2017

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Ideias e tecnologias disruptivas



Alguns artigos acerca da temática em língua portuguesa. O primeiro, mais analítico, de Ricardo Arroja. O segundo, menos consistente, porque parece ignorar o mais importante destas tecnologias: permitem mudanças maiores em sectores monopolizados ou cartelizados. E se possuem riscos (ou estão associadas a manias), aquelas vantagens não são de somenos.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Radar


Não sei se será uma tentativa para experimentar algo maior, mas o governo da Coreia do Sul passará a "aliviar" as dívidas dos contribuintes menos abonados. Já existe "dotação orçamental" e tem o nome de "Fundo da Felicidade".

Isto é sério. E há um burocrata que defende esta pérola destacando-a como uma característica, prepare-se o leitor, do "capitalismo confuciano". Assim. Ora veja.

Será que estes exotismos não passam disso mesmo? Ou serão ensaios para um "Jubileu da dívida" mais alargado?

sábado, 2 de dezembro de 2017

Cogitações (10)

Um sinal curioso (e perigoso para quem participa, julgo) do estado dos mercados e índices bolsistas é a evolução do preço da moeda criptográfica Bitcoin. Para além da dificuldade em determinar com precisão a que classe de bens pertence, a Bitcoin e o seu preço ilustram bem a natureza do movimento actual dos mercados.

Que outros activos ou investimentos têm semelhantes linhas de progressão do seu preço? Historicamente, conhecem-se alguns casos, mas o final não foi bonito. Muito se pode dizer acerca das razões que podem estar por detrás destes movimentos no preço (tendo ultrapassado os 9 mil euros ou 11 mil dólares na passada semana), ou das respostas que os governos darão a tais "veículos" especulativos. No último ano, por exemplo, na China tornou-se claro que seria um óptimo meio de mobilizar capital para o exterior, escapando às recentes campanhas de Xi para controlar o país, a moeda e os mercados.

O que gostava de sublinhar aqui, a par com esta introdução, é a qualidade deste veículo como solução, como resposta difundida até pelos meios e autores mais técnicos acerca destas matérias (criptomoedas ou novas tecnologias financeiras).
É que um dos fundadores destas ferramentas (neste caso da moeda Ethereum - Vitalik Buterin) alertou recentemente para as limitações que estas soluções possuem para dar resposta às solicitações que esta febre nos mercados parece publicitar a seu respeito. Veja-se a seguinte passagem da entrevista (cujo visionamento fortemente aconselho):

"Se se considerar o número de blocos encadeados (blockchain) que hoje podemos processar, a Bitcoin consegue processar menos de três transacções por segundo, e se conseguir chegar a quatro atingiu o seu máximo de capacidade. No caso da Ethereum tem estado a concretizar cinco transacções por segundo, se chegar às seis atinge também o pico de capacidade."

É na constatação destas limitações que os recentes movimentos de preços destes "veículos" me parecem menos saudáveis.
Para não falar de que até os participantes e conhecedores destas novas tecnologias parecem querer ignorar estas palavras.
Mesmo que se considerem as diferenças entre as moedas criptográficas e as tecnologias que as suportam (de que os blocos encadeados - blockchain -, são um exemplo) face aos múltiplos campos de aplicação possíveis, estas palavras de um fundador não devem ser ignoradas. São um aviso importante.

Será interessante seguir os próximos desenvolvimentos.
Para já, parece haver um novo campo de desenvolvimento de soluções que ultrapassa (já!) estas soluções da moda (sejam da Bitcoin, da Ethereum ou Blockchain). A novidade (da novidade!) chama-se Hashgraph e tem "elegâncias" técnicas que em muito parecem suplantar as suas concorrentes (ao nível do registo e gestão dos diferentes protocolos de informação, bem como as melhorias na justiça e segurança na gestão da rede). O seu fundador é Leemon Baird e a sua empresa conta já com centenas de contratos com uniões de crédito nos EUA.

Há muito a aprender e a velocidade dos desenvolvimentos é estonteante e os riscos (bem como as oportunidades!) podem assemelhar-se a outras épocas e febres tecnológicas, mas o futuro passa por aqui. Sem dúvida.